Estabelecimento da Cátedra de Investigação José Saramago do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua na Universidade de Sófia Sveti Kliment Ohridski

O Reitor da Universidade de Sófia Prof. Anastas Gerdjikov e o Embaixador Luís Faro Ramos, Presidente do Camões – Instituto de Cooperação e da Língua de Portugal, assinaram em novembro de 2019 o protocolo de cooperação para a criação da Cátedra de Investigação José Saramago na Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas.

As Cátedras do Instituto Camões funcionam como forma de cooperação interinstitucional entre o Camões, I.P. e universidades estrangeiras, prevendo o apoio à investigação no domínio dos Estudos Portugueses. A Cátedra José Saramago da Universidade de Sófia integrará a rede mundial de 50 cátedras Camões instituídas em prestigiados centros académicos de mais de 20 países, em que se desenvolvem o ensino e a investigação na área da língua, da literatura e da cultura portuguesa.

O protocolo de cooperação prevê o apoio institucional do Camões, I.P. e da Universidade de Sófia a projetos de investigação e formação na área do português, incluindo fóruns científicos, conferências e encontros com destacados académicos e personalidades da cultura portuguesa, seminários de formação especializados, concursos de tradução de literatura portuguesa, publicação de traduções e estudos e outros.

A assinatura do acordo contou com a presença da Embaixadora Extraordinária e Plenipotenciária da República Portuguesa em Sófia S.Ex.ª Sr.ª Elena de Almeida Coutinho, da Vice-Reitora da Universidade de Sófia Prof.ª Dr.ª Reneta Bozhankova, da Decana da Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas Prof.ª Dr.ª Madeleine Danova, da Coordenadora da Filologia Portuguesa na FFCM Prof.ª Dr.ª Yana Andreeva e da Diretora do Centro de Língua e Cultura Portuguesa Camões – Sófia e Leitora de Língua e Cultura Portuguesa na Universidade de Sófia Dr.ª Anaísa Gordino.

Dias de Lusofonia na Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas da Universidade de Sófia

A Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas acolheu os tradicionais Dias da Lusofonia, que se realizaram online durante o mês de novembro de 2020. O ciclo de eventos foi organizado pela Filologia Portuguesa junto ao Departamento de Estudos Hispânicos e Lusófonos conjuntamente com a Cátedra de Investigação José Saramago, estabelecida em 2019 através de um protocolo de cooperação entre a Universidade de Sófia e o Camões – Instituto de Cooperação e da Língua de Portugal.

O programa dos Dias da Lusofonia incluiu conferências de três destacados investigadores das literaturas e culturas de língua portuguesa. A Prof.ª Dr.ª Isabel Pires de Lima, o Prof. Dr. Petar Petrov e o Prof. Dr. Istvan Rakoczi participaram nos Dias da Lusofonia com transmissões ao vivo do Porto, de Lisboa e Budapeste. As conferências, proferidas em salas virtuais, contaram com a presença de estudantes de licenciatura, mestrado e doutoramento e docentes do curso de Filologia Portuguesa da Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas, estando também presente a diretora do Camões – Sófia, Centro de Língua e Cultura Portuguesa junto à Embaixada de Portugal em Sófia e leitora de Português na universidade Dr.ª Anaísa Gordino. A moderação dos eventos esteve a cargo da Prof.ª Dr.ª Yana Andreeva, Coordenadora da Filologia Portuguesa e da Cátedra José Saramago.

Na sua saudação aos conferencistas e participantes dos Dias da Lusofonia, a Decana da Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas Prof.ª Dr.ª Madeleine Danova manifestou a sua satisfação pelo facto de que apesar dos desafios da situação pandémica atual na faculdade está a realizar-se mais uma edição anual deste fórum já tradicional que promove o intercâmbio científico e educacional. Agradeceu aos organizadores o empenho em manter a tradição de celebrar todos os anos os Dias da Lusofonia, para que os alunos da Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas possam conhecer a riqueza e os avanços das culturas lusófonas.

A primeira conferência do programa dos Dias da Lusofonia foi proferida pela Prof.ª Dr.ª Isabel Pires de Lima, Professora Emérita da Universidade do Porto e Doutora Honoris Causa da Universidade de Sófia, e foi intitulada “A Queda de um Anjo – Queda ou Libertação?”. A Prof.ª Pires de Lima apresentou a obra narrativa de um dos ficcionistas mais importantes do mundo lusófono – o clássico português da época do Romantismo Camilo Castelo Branco. Concentrando-se em particular em “A Queda de um Anjo”, a Prof.ª Pires de Lima delineou as caraterísticas gerais da novela de Camilo e suas manifestações específicas no texto: um enredo complexo; ação construída linearmente; ritmo narrativo acelerado; representação concisa dos personagens, a fim de destacar os sentimentos obsessivos que os dominam; narrador interferindo em julgamentos irónicos ou emocionais; linguagem rica, combinando retórica sublime com discurso coloquial. Apresentando sua tese sobre o „romantismo realista“ ou „realismo romântico“ de Camilo, a Prof.ª Isabel Pires de Lima destacou as profundas contradições ideológicas do protagonista do romance, em cuja figura os pesquisadores da obra de Camilo encontram nítidos traços da personalidade do autor.

A evolução ideológica do personagem revela os traços opostos que fazem de Calisto Elói um homem entre duas épocas antagónicas, como o foi o próprio Camilo Castelo Branco, nas palavras de Isabel Pires de Lima. Essas oposições revelam-se entre a ética aristocrática conservadora subjacente à educação rígida do herói e a sua tentação de ceder aos apelos de Eros e ao luxo imposto pelas formas de entretenimento e pelos padrões de conforto material importadas do estrangeiro; entre o conhecimento erudito dos clássicos e o crescente interesse pela língua francesa, identificado com o novo modo de vida burguês; entre o uso do português clássico e até anacrónico e o subsequente fascínio por estrangeirismos; entre o desprezo pelo progresso e pela modernização da atrasada realidade portuguesa e o fascínio por todas as inovações da moda e da indústria estrangeiras; entre o conservadorismo político e as ideias do liberalismo; ainda entre o compromisso de tipo feudal com o Trono e o Altar e o estilo burguês e livre de vida social.

Depois de acompanhar os sentidos da metamorfose de Calisto Elói, na parte final de sua conferência a Prof.ª Pires de Lima formulou uma das hipóteses interpretativas possíveis, de que o anjo, desvinculado da realidade imaginária dos livros, tornou-se um jovem fortemente apegado à vida.  As ideias aprendidas, adotadas dos livros na leitura solitária, dão lugar à comunicação com o outro na vida real e esse é o caminho para a emancipação do ser humano.

O Prof. Dr. Istvan Rakoczi da Universidade Eotvos Lorand-ELTE em Budapeste proferiu a conferência “Continuidade dos parques – os painéis históricos de Françoise Shein como uma história interativa de Portugal e seus espaços ultramarinos“. Ele apresentou um breve panorama histórico das celebrações durante o século XX dos Grandes Descobrimentos Portugueses e a presença do tema dos Descobrimentos em alguns parques urbanos que são espaços emblemáticos da capital portuguesa. O Prof. Rakoczi examinou os sentidos da representação artística da empresa globalizante dos navegadores portugueses durante os séculos XV-XVI, presentes nos painéis decorativos de cerâmica da artista francesa Françoise Shein, que revestem as paredes da estação de metro Lisboa Parque, construída em 1959 e renovada em 1994.

Estabelecendo uma analogia com as ideias do filósofo português José Gil, o conferencista apresentou o espaço da estação de metro Parque como um espaço de reflexão e um espaço de transição, no qual decorrem os processos de síntese, desconstrução e construção da história. Como historiador da literatura, o Prof. Istvan Rakoczi destacou em primeiro lugar, entre as imagens presentes nos painéis de cerâmica, os títulos de textos clássicos dedicados aos descobrimentos portugueses e à expansão territorial do Império Português durante o Renascimento. A palestra abordou também as imagens de signos e símbolos cartográficos, religiões e culturas mundiais, bem como as diferentes representações de globos terrestres que testemunham as etapas da história da ciência cartográfica. Em conclusão, o Prof. Rakoczi enfatizou a natureza dinâmica e dialética desta “historiografia” em cerâmica, que segundo palavras da própria Françoise Shein tem por objetivo, através de projetos artísticos como esse, inscrever a Declaração Universal dos Direitos do Homem no espaço urbano e quotidiano de grandes cidades do mundo como Paris Bruxelas, Haifa, Lisboa e outras.

Na sua conferência “Trajetórias do Conto Brasileiro” o Prof. Dr. Petar Petrov do Centro de Literatura e Culturas Lusófonas e Europeias da Universidade de Lisboa apresentou um panorama histórico do desenvolvimento do género na literatura brasileira. Brasil. Abordando alguns dos principais exemplos do género da segunda metade do século XIX até ao final do século XX, o Prof. Petrov examinou as obras de contistas brasileiros proeminentes de diferentes períodos histórico- literários e de diversas correntes estéticas.

Apresentando os contos “A Cartomante”, “Teoria do Medalhão” e “Missa do Galo”, do fundador do conto brasileiro contemporâneo, Machado de Assis,  o conferencista ilustrou as técnicas mais características do autor na construção dos mundos ficcionais das suas obras, nomeadamente a ação condensada e o enredo simplificado, que privilegia o acontecimento acidental apresentado como uma espécie de clímax na vida do protagonista. Os personagens de Machado são geralmente representantes da classe média do Rio de Janeiro, e a descrição de seu comportamento diário e da sua moral ilustra a crítica do autor à população urbana rica do Brasil Império. A palestra focou mais três figuras de escritores que protagonizaram a história do género no Brasil e a sua renovação durante a segunda metade do século XX.

Nos contos de Clarice Lispector evidencia-se o modelo da prosa psicológica sob a influência do existencialismo dos anos ’60. O enfoque no mundo íntimo das personagens, na maioria das vezes donas de casa da grande cidade, bem como a escrita assimétrica e fragmentada, enfatizando o detalhe e a dualidade, constroem a poética introspetiva e subjetivista de Lispector. O Prof. Petrov também abordou os contos regionalistas de Guimarães Rosa, destacando como seus temas caraterísticos a infância, as viagens e o crescimento, que se desdobram no cenário do sertão brasileiro, onde pastores, caçadores, pedreiros, ciganos, fugitivos da justiça, cegos, bandidos e assassinos vivem no mundo arcaico de muitos outros personagens também anónimos. Por meio da sua história mitopoética esses personagens de Rosa revelam a visão de mundo do brasileiro do interior do país e a imagem profunda do próprio Brasil.

Na parte final de sua palestra o Prof. Petar Petrov apresentou alguns textos de Ruben Fonseca, sublinhando que no estilo do hiper-realismo os contos do autor refletem a realidade repressiva e violenta durante a ditadura militar brasileira, mas também permitem a analogia com a realidade mais atual. Afetados pela alienação e pela violência, os personagens de Ruben Fonseca sufocam em seu ambiente urbano fechado, o que os condena à exclusão social e à marginalização. Seu confronto com esse ambiente provoca a violência tão caraterística das grandes cidades brasileiras e, ao mesmo tempo, expressa o extremo desamparo de personagens marginalizados diante de um sistema dominado por formas decadentes de cultura de massa e aguda injustiça social.

 

 

A Cátedra José Saramago da Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas da Universidade de Sófia Sveti Kliment Ohridski associou-se à rede científica internacional JaRICCA

A Cátedra José Saramago da Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas, criada em novembro de 2019 com o protocolo de cooperação entre o Camões Instituto da Cooperação e da Língua, Portugal, e a Universidade de Sófia Sveti Kliment Ohridski, associou-se, em fevereiro de 2021, à rede científica JaRICCA (Jangada – Rede Internacional de Cátedras, Centros de Investigação e Associações).

Constituída em Pontevedra, no dia 1 de dezembro de 2019, por ocasião das IV Jornadas Internacionais José Saramago da Universidade de Vigo, JaRICCA tem como fundadoras: I Cátedra Internacional José Saramago (Universidade de Vigo), Cátedra Libre José Saramago (Universidad Nacional de Córdoba), Cátedra José Saramago (Università degli Studi Roma Tre), Cátedra Extraordinária José Saramago (Universidade Nacional Autónoma de México), Cátedra José Saramago (Universitat Autónoma de Barcelona), ​​ Cátedra José Saramago (Universidad de Granada), assim como uma dezena de organizações científicas de renome em Portugal, França, Espanha, Brasil e Estados Unidos.

A rede JaRICCA tenta corresponder a três ideias centrais que podem ser deduzidas da obra e do pensamento saramaguiano: o trans-iberismo, a “Carta universal de deveres e obrigações dos seres humanos”, sugerida por José Saramago como complemento necessário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e a consciência de que as mudanças verdadeiramente importantes só se alcançam ao adotar posições extra-sistémicas, como assinala a Ata Fundacional da Jangada – Rede Inter- nacional de Cátedras, Centros de Investigação e Associações. Formulando como seu objetivo geral a criação de sinergias e projetos de colaboração no âmbito dos Estudos Lusófonos através da docência, investigação ou de atividades de extensão, a rede JaRICCA indica entre os seus objetivos específicos o desenvolvimento de projetos conjuntos de investigação com vista à transferência de conhecimentos no domínio dos estudos lusófonos; a organização e realização de atividades de divulgação como cursos de formação internacional, conferências, simpósios e seminários; o apoio a docentes, investigadores e estudantes; o intercâmbio de publicações académicas, de alunos, professores e investigadores, bem como outras atividades e projetos internacionais relacionados com o desenvolvimento e divulgação da investigação na área dos Estudos Lusófonos.

A associação da Cátedra José Saramago da Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas à Jangada Rede Internacional de Cátedras, Centros de Investigação e Associações irá contribuir para uma maior visibilidade internacional da atividade de investigação dos docentes e doutorandos da Filologia Portuguesa e para o incremento das iniciativas internacionais de investigação, formação e divulgação cultural na área dos Estudos Portugueses e Lusófonos que se desenvolvem na Universidade de Sofia Sveti Kliment Ohridski.

 

Conferências da Prof.ª Dr.ª Fátima Marinho da Universidade do Porto durante os Dias da Lusofonia na Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas da Universidade de Sófia Sveti Kliment Ohridski

A Prof.ª Dr.ª Fátima Marinho da Universidade do Porto proferiu um ciclo de conferências no âmbito do intercâmbio académico Erasmus+. As conferências foram dedicadas ao romance histórico português e integraram-se no programa dos Dias da Lusofonia na Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas da Universidade de Sófia.

Fátima Marinho é Professora Catedrática, estudiosa da literatura portuguesa e em particular da narrativa histórica portuguesa de várias épocas, investigadora de méritos altamente reconhecidos pela comunidade científica internacional. Exerceu altos cargos académicos na Universidade do Porto: Vice-Reitora de Relações Internacionais e Cultura (2014-2018), Decana da Faculdade de Letras (2010-2014), sendo atualmente Diretora do Programa de Doutoramento em Literatura e Estudos Culturais. A Prof.ª Marinho foi professora visitante em universidades estrangeiras, é detentora de prémios nacionais e estrangeiros, autora de numerosas publicações científicas.

Como ponto de partida nas suas palestras em que abordou a maneira como o romance histórico português de diferentes épocas lê o passado nacional e mundial, a Prof.ª Marinho considerou a importância do passado para o homem medieval e renascentista, a partir das ideias de Peter Burke. Ela apresentou em detalhes o conceito de que a história é uma leitura de eventos passados ​​e presentes que são ideologicamente construídos à luz de interesses subjetivos ou públicos. A literatura também é uma construção, mas pela sua natureza ficcional inerente se distancia dos objetivos e intenções da ciência histórica. A Prof.ª Fátima Marinho examinou o contexto histórico e social específico do Romantismo em que se afirmam a popularidade e o significado do romance histórico. Ela enfatizou a mudança conceitual do género durante o século XX, já apontada pela pesquisadora Linda Hutcheon. Tal mudança expressa-se na nova forma de textualizar o passado por meio da metaficção historiográfica. As principais obras de John Fowles, Virginia Woolf, Marguerite Yoursenar e outros escritores, que são exemplos da atual leitura metaficcional da história, também foram objeto de análise aprofundada pela conferencista. A Prof.ª Marinho examinou em pormenor as últimas décadas do século passado para evidenciar a perspetiva crítica presente na ficção histórica de autores portugueses de destaque como José Saramago, Mário Cláudio, Agustina Bessa-Luís, António Lobo Antunes e Gonçalo M. Tavares. Foi traçado o paralelo entre a obra de Gonçalo M. Tavares Uma Viagem à Índia e a epopeia clássica de Luís Vaz de Camões Os Lusíadas, o que permitiu evidenciar as técnicas de desconstrução da metaficção contemporânea. Na parte conclusiva das conferências, a Prof.ª Fátima Marinho enfatizou as mensagens da metaficção historiográfica e destacou o fato de que conhecemos do passado apenas o que nos chegou por escrito, o que por sua vez nos permite afirmar que o cânone histórico e literário oficial hoje é muito instável.

Nas conferências da Prof.ª Fátima Marinho estiveram presentes estudantes dos três ciclos da Filologia Portuguesa, pós-doutorandos e docentes da Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas.

 

 

Encontro com o escritor português João Pinto Coelho durante os Dias da Lusofonia na Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas na Universidade de Sófia

Encontro com o escritor português João Pinto Coelho durante os Dias da Lusofonia na Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas na Universidade de Sófia

Estudantes, docentes e doutorandos de Filologia Portuguesa na Universidade de Sófia Sveti Kliment Ohridski realizaram um encontro online com o escritor português João Pinto Coelho, que desde Lisboa participou no programa dos Dias da Lusofonia na sua edição de 2021. O evento foi organizado por ocasião do lançamento na Bulgária do romance “Perguntem a Sarah Gross”, primeira obra de João Pinto Coelho traduzida para o búlgaro.

O encontro foi moderado pela Prof.ª Dr.ª Yana Andreeva, Coordenadora da Filologia Portuguesa e da Cátedra de Investigação “José Saramago” na Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas. Ela apresentou panoramicamente a obra narrativa de João Pinto Coelho, com destaque para o romance de estreia, que agora é publicado na Bulgária e é uma espécie de “livro contra o esquecimento”. O autor é arquiteto de formação e professor de artes visuais, e sua ligação com a literatura fortaleceu-se na última década, durante a qual publicou, além de “Perguntem a Sarah Gross” (2012), mais dois romances de grande sucesso que atraíram a atenção de leitores portugueses e estrangeiros e foram finalistas de vários prémios literários em Portugal.

Fotografia: J.P.C.Revista Estante Fnac

Na conversa João Pinto Coelho referiu que, embora se tivesse dedicado tarde à escrita, os livros sempre foram uma parte muito importante da sua vida, sobretudo quando criança. O seu primeiro contato com a escrita criativa foi motivado por uma viagem. A experiência que ganhou durante as suas muitas viagens pela Europa e pela América do Norte, bem como os conhecimentos que adquiriu ao estudar aprofundadamente a história do Velho Continente, em particular os grandes conflitos mundiais do século XX, moldaram os temas das suas obras. “Perguntem a Sarah Gross” conduz o leitor para o passado da Europa, e concretamente para a Polónia depois do final da Primeira e durante a Segunda Guerra Mundial, focando o destino da população judaica naquele difícil período da história mundial. O sucesso do romance, segundo João Pinto Coelho, deve-se ao estudo aprofundado que realizou sobre o Holocausto. É esse tópico complexo que, em última análise, dá vida a “Perguntem a Sarah Gross”. “Ao contrário de outros escritores, não foi a literatura que me levou a Auschwitz, mas foi Auschwitz que me levou à literatura. Sem ter pensado até então em escrever um romance um dia, eu sabia que, se o fizesse, seria esse o tema central”, assinalou João Pinto Coelho.

Dimitar Atanassov, estudante do quarto ano da licenciatura em Filologia Portuguesa e tradutor do romance “Perguntem a Sarah Gross”, compartilhou suas impressões sobre a obra e sobre o processo da sua tradução para búlgaro. Agradeceu ao escritor, primeiro na qualidade de leitor do romance, mas também como tradutor pela confiança nele depositada. Dimitar Atanassov referiu os desafios da tradução literária que teve de enfrentar ao trabalhar na versão búlgara de um texto tão rico em detalhes históricos e cheio de descrições pormenorizadas. Segundo ele, a superação desses desafios traz uma sensação de grande satisfação com o trabalho realizado: “Afinal, esta é a minha primeira tradução. Admito que enfrentei desafios em todas as páginas, mas gostei imenso do processo.” Os participantes no encontro expressaram finalmente a esperança de novas traduções e de um próximo encontro presencial em Sófia.

 

 

Encontro com o escritor português Afonso Cruz nos Dias da Lusofonia na Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas

No âmbito dos Dias da Lusofonia, formato científico, formativo e cultural que tem a tradição de edições anuais na Universidade de Sófia, estudantes, docentes e doutorandos da Filologia Portuguesa tiveram um encontro com o escritor português Afonso Cruz que esteve em Sófia por ocasião da Feira do Livro de Primavera. O encontro foi organizado pela Cátedra de Investigação „José Saramago“ na Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas com a amável colaboração do Centro de Língua e Cultura Portuguesa „Camões“ – Sófia.

A mediação foi realizada pela Prof.ª Dr.ª Yana Andreeva, Coordenadora da Filologia Portuguesa e da Cátedra de Investigação “José Saramago”, que apresentou a obra de Afonso Cruz, incidindo mais detalhadamente no romance recém-publicado na Bulgária, „Os livros que devoraram o meu pai“, e na tão esperada estreia em Portugal da mais recente obra do escritor „O vício dos livros“. Com mais de 30 obras, entre romances, contos, ensaios e livros de poesia, Afonso Cruz é um dos escritores portugueses mais produtivos e mais lidos da atualidade. Associado profissionalmente a vários campos criativos, como a literatura, a ilustração, o cinema e a música, Afonso Cruz tem se afirmado como um dos nomes de destaque da nova literatura portuguesa. Seus livros têm sido distinguidos com numerosos prémios literários, nacionais e internacionais, como o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, o Prémio da União Europeia para a Literatura, o Grande Prémio de Literatura de Viagens Maria Ondina Braga da APE, o Prémio Fernando Namora, o Prémio Sociedade Portuguesa de Autores, entre outros. Para deleite do leitor búlgaro, alguns dos títulos de maior sucesso de Afonso Cruz já foram traduzidos na Bulgária: “A Boneca dе Kokoschka”, “Barafunda”, „Os livros que devoraram o meu pai“.

Fotografia: Paulo Sousa Coelho

Afonso Cruz falou do romance “Os livros que devoraram meu pai”, sua última obra traduzida para búlgaro, como um livro intrigante para quem lê e quem escreve. Referiu-se também a “O vício dos livros”, recentemente publicado em Portugal, que mistura histórias curiosas de escritores, fragmentos autobiográficos, memórias, reflexões, diálogos com leitores. O escritor respondeu a perguntas relacionadas com o seu processo criativo, sua paixão pelos livros e as leituras que moldaram sua visão do mundo. Sobre a sua última obra “O vício dos livros”, Afonso Cruz assinalou que se trata de um texto que se dedica à importância da leitura e às mudanças que esta pode trazer ao indivíduo e à sociedade em geral. Ele destacou que os livros mudaram sua vida desde a mais tenra infância e contou várias histórias que comprovam o impacto da leitura no destino de pessoas reais que conheceu quando estava reunindo materiais para seu trabalho. Em relação à sua experiência de leitor, o escritor disse que começou a ler por acaso quando era criança e, desde então, os livros têm sido uma parte muito importante de sua vida: „Quando comecei a ler, imediatamente me apaixonei pelos livros e desde então sou um leitor apaixonado.“ Afonso Cruz falou também sobre o grande impacto das histórias de aventura que despertaram seu desejo de viajar e explorar o mundo e acrescentou que quando abrimos um livro, abrimos o caminho para o futuro

No encontro com Afonso Cruz foi abordada a questão de que as histórias de seus livros se afastam muitas vezes do ambiente português para se referirem a uma realidade supranacional e cosmopolita. Foi debatida a questão se a identidade nacional está presente como tema na literatura atual, se o seu lugar é instável, numa cultura contemporânea cada vez mais internacionalizada e globalizada. Segundo Afonso Cruz, culturas e identidades nascem da combinação de muitos fatores – tanto coletivos quanto pessoais, e hoje temos muita liberdade para escolher nossa identidade, podemos criá-la nós mesmos. Quanto à sensação de se ter uma identidade única, original, Cruz partilhou o seu apego à região onde nasceu, às imagens que marcaram a sua infância e adolescência, bem como o seu interesse por uma das línguas que configuram a identidade cultural única de alguns portugueses, uma língua com raízes antigas, que remonta ao século XII, hoje preservada na região do Douro e conhecida como “mirandês”. No final da conversa, os estudantes e docentes da Filologia Portuguesa na Universidade de Sófia expressaram a esperança de um novo encontro com Afonso Cruz no lançamento do seu próximo livro em tradução búlgara.

 

 

 

Comemoração do Dia Mundial da Língua Portuguesa na Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas da Universidade de Sófia Sveti Kliment Ohridski

Os Dias da Lusofonia que tradicionalmente se celebram ao longo do mês de maio na Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas foram inauguradas com a Comemoração do Dia Mundial da Língua Portuguesa.

O ciclo de eventos internacionais de natureza científica, educativa e cultural está a ser organizado pela Licenciatura em Filologia Portuguesa do Departamento de Estudos Espanhóis e Portugueses e pela Cátedra José Saramago, instituída na Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas em 2019 com a assinatura do Protocolo de cooperação entre a Reitoria da Universidade de Sófia Sv. Kliment Ohridski e Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P., junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Portuguesa.

O evento on-line foi cenário para a comunicação dos resultados do Concurso de tradução direcionado aos estudantes e organizado em homenagem ao Dia Mundial da Língua Portuguesa. Assistiram a Prof.ª Dr.ª Madlen Danova, Presidente da Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas, Sua Excelência Ana Maria Ribeiro da Silva, Embaixadora de Portugal na Bulgária, Sua Excelência Maria Edileuza Fontenele Reis, Embaixadora do Brasil na Bulgária, estudantes, doutorandos, pós-doutorandos e professores da Licenciatura em Filologia Portuguesa. O evento foi moderado pela Prof.ª Dr.ª Yana Andreeva, Responsável pela Licenciatura em Filologia Portuguesa e Coordenadora da Cátedra José Saramago na Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas da Universidade de Sófia Sv. Kliment Ohridski.

No seu discurso de boas-vindas dirigido aos participantes e ao público deste evento, a Prof.ª Dr.ª Madlen Danova expressou a sua profunda satisfação de mais uma vez ter sido celebrada a iniciativa dos Dias da Lusofonia, uma tradição que se tem instaurado na Faculdade há longa data, mas que vinha a ser pela primeira vez inaugurada com uma comemoração do Dia Mundial da Língua Portuguesa, proclamado por decisão da Assembleia Geral da UNESCO em novembro de 2019. A Prof.ª Dr.ª Danova distinguiu o trabalho bem sucedido dos alunos e dos docentes da Licenciatura em Filologia Portuguesa, agradecendo a todos os que possibilitam a promoção deste tipo de celebrações com o seu árduo trabalho não apenas neste dia, mas em todos os dias dos anos transcorridos, a favor da divulgação da língua e cultura portuguesas. Tendo completado os seus estudos, os alunos da Licenciatura em Filologia Portuguesa hão de ser os embaixadores da língua e cultura portuguesas de maior sucesso, destacou a Presidente da Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas, frisando a importância do apoio que os embaixadores dos países lusófonos em Sófia e os representantes do Instituto Camões nos prestam.

Finalizando as suas palavras de acolhimenro, a Prof.ª Dr.ª Danova disse: «Vou servir-me das palavras do Suddiretor Geral para a Cultura da UNESCO, que considera a língua portuguesa uma língua de encontros tanto na terra, como no oceano. Independentemente de que se trate de encontros cara a cara ou encontros virtuais, aos que nos temos ido habituando ultimamente, a aprendizagem de uma nova língua estrangeira é sempre um prazer, como o é a tentativa de compreender a cultura ou as culturas que se exprimem nessa língua, passando a formar parte delas. O facto de a Línguia Portuguesa ser a língua dos Descobrimentos, dos encontros em perspetiva histórica e civilizacional, é mais um pormenor que me atraiu sempre nas culturas que usam esta linda língua em todas as suas variedades. Por isso, hoje sinto uma felicidade especial em poder compartilhar convosco este evento comemorativo, homenageando a importância mundial da língua portuguesa junto com os alcances dos alunos e dos docentes da Licenciatura em Filologia Portuguesa da nossa Faculdade».  

A Embaixadora de Portugal em Sófia, S. Ex.ª Sra. Ana Maria Ribeiro da Silva dirigiu-se aos participantes e organizadores do evento comemorativo, ressaltando o papel globalizante do português no mundo de hoje e apresentando sucintamente o processo de proclamação da data 5 de maio como Dia Mundial da Língua Portuguesa: «Já em 2009, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa havia escolhido o dia 5 de maio como Dia da Língua Portuguesa e Cultura da CPLP. Dez anos depois, em 2019, e por iniciativa do Embaixador de Portugal na UNESCO, António Sampaio da Nóvoa, acompanhado pelos seus colegas de países de língua portuguesa, a UNESCO ampliou o escopo do 5 de maio para Dia Mundial da Língua Portuguesa. O português juntou-se assim às línguas oficiais das Nações Unidas: árabe, chinês, espanhol, francês, inglês e russo, como língua internacional. Esta é a primeira coisa que celebramos: a projeção e o reconhecimento global do idioma falado em todos os continentes por mais de 265 milhões de pessoas. Devido a este facto valorizamos o português como bem comum. Ele é língua oficial de 9 países e uma região especial – Macau. Pertence a todos quantos o falam ou usam em casa, na escola, no trabalho, no negócio, nos média, nas organizações, na ciência, no espaço público, na literatura e nas artes. A todos pertence, sem precedências, nem hierarquias. Celebramos assim a diversidade de uma língua pluricêntrica que conta com diferentes variedades. O que disse Mia Couto, adaptando a frase de Pessoa, «a minha pátria é a língua portuguesa» poderíamos dizer todos: os africanos, os brasileiros, os portugueses, os timorenses, porque falam a mesma língua de maneiras diferentes e a riqueza da língua vém desta diversidade

No seu discurso, a Embaixadora de Portugal indicou que as comemorações do Dia Mundial da Língua Portuguesa festejam igualmente os diversos usos da língua que transformaram e revivificaram o idioma, mas acima de tudo a literatura do mundo lusófono e as demais artes que nela se inspiram como são o cinema ou o teatro, e os saberes sobre a língua portuguesa daqueles que a estudam e a professoram, enfim, o ensino da língua portuguesa e das culturas lusófonas dentro ou fora do espaço lusófono. Destacando a importância do português enquanto língua comum, meio de comunicação, de intercompreensão e, por conseguinte, de respeito mútuo, Sua Excelência Ana Maria Ribeiro da Silva dedicou as suas palavras conclusivas ao valor que se dá às comemorações por todo o mundo: «Por estes dias, em 45 países uma centena e meia de atividades estão a ser promovidas ou apoiadas pelo Instituto Camões, pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, pelas embaixadas de Portugal e de outros países lusófonos que dão vida ao Dia Mundial da Língua Portuguesa».

A Embaixadora do Brasil, S. Ex.ª Sra. Maria Edileuza Fontenele Reis fez uso da palavra para cimprimentar o público deste evento comemorativo, compartindo as suas memórias pessoais de ter participado no processo da declaração do Dia Mundial da Língua Portuguesa: «Em 2019, tive a honra e o privilégio de estar servindo  como representante, delegada permanente do Brasil junto à UNESCO quando participei juntamente com os Embaixadores de todos os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa da elaboração e da negociação de uma decisão que propunha a incorporação no calendário da UNESCO do dia 5 de maio como Dia Mundial da Língua Portuguesa. Nossa negociação conjunta foi absolutamente vitoriosa e tivemos, portanto, essa decisão aprovada durante a 40ª sessão da Conferência Geral da UNESCO em dezembro de 2019. E essa decisão tão significativa sublinhava a importância e o papel essencial da língua portuguesa na preservação e na disseminação da cultura e da civilização humanas. Registro esse facto, porque numa carreira diplomática tão longa, temos tido oportunidade de participar de vários momentos importantes para os nossos países, e este momento de que participei foi um momento do qual eu tenho especial orgulho.» A Embaixadora do Brasil fez fincapé no estatuto internacional da língua portuguesa, frisando o esforço dos países lusófonos por consagrarem num futuro próximo a língua portuguesa como língua oficial das Nações Unidas. Enumerando as variadas iniciativas que as instituições brasileiras organizaram para celebrar o Dia Mundial da Língua Portuguesa, Sua Excelência Fontenele Reis manifestou a sua alegria de presenciar a celebração na Universidade de Sófia junto com os estudantes, os doutorandos e os pós-doutorandos que se dedicam ao estudo da língua portuguesa e das culturas e literaturas lusófonas com as palavras: «Vocês são os verdadeiros embaixadores da língua portuguesa aqui na Bulgária. Espero que um dia o venham a ser noutras partes do mundo também.  Gostaria de finalizar o meu discurso por reafirmar o orgulho que temos de ter o português  como idioma oficial e língua nacional de todos os quase 215 milhões de brasileiros. Trata-se de uma língua que abriga, como já foi dito anteriormente, uma extraordinária diversidade cultural, uma língua que é a mais falada no hemisfério sul. Assim, agradeço mais uma vez à Universidade de Sófia pela organização deste momento importante e cumprimento novamente os alunos e o corpo docente da Licenciatura em Filologia Portuguesa».

No evento, anunciaram-se os finalistas e vencedores do Concurso de tradução para estudantes que este ano foi celebrado pela primeira vez por iniciativa da Cátedra José Saramago na Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas e dedicado a homenagear o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Em nome do júri, a Prof.ª Dr.ª Vesela Chergova apresentou o Regulamento do concurso, agradecendo a todos os participantes pelo empenho dos seus trabalhos que foram elaborados dignamente com muito cuidado, muita diligência e sensibilidade artística pela língua do original e pela língua da versão: o português e o búlgaro. Para o concurso deste ano foi selecionado o conto «Monólogo com Erva-Cidreira» do escritor português contemporâneo José Riço Direitinho e as traduções foram avaliadas com base em quatro critérios: cultura linguística e perceção da língua portuguesa; cultura linguística da expressão em búgaro; parâmetros sociais, históricos e culturais da tradução; estética e originalidade das escolhas tradutológicas.

A tradução de Tereza Vasileva venceu o primeiro prémio. O Segundo prémio foi atribuído à tradução de Yoana Atanasova. O júri concedeu um Prémio Especial de tradução original que foi entregue a Dimitar Atanasov.

Os Diplomas dos estudantes premiados tiveram uma entrega virtual pela Presidente da Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas, a Prof.ª Dr.ª Madlen Danova que aproveitou para cumprimentar os vencedores, os organizadores e todos os participantes no Concurso, sublinhando a sua profunda satisfação pelo entusiasmo com que os estudantes aderiram a esta iniciativa interessante da Cátedra José Saramago na Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas da Universidade de Sófia Sveti Kliment Ohridski.

Celebração do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas na Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas da Universidade de Sófia Sveti Kliment Ohridski

A convite da Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas (FFCM) е da Cátedra José Saramago na Universidade de Sófia Sv. Kliment Ohridski, a Embaixadora de Portugal na Bulgária, S. Ex.ª Ana Maria Ribeiro da Silva, proferiu uma conferência académica intitulada «Portugal na família europeia» em homenagem ao Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. À lição comemorativa assistiram estudantes, docentes, doutorandos e pós-doutorandos da Licenciatura em Filologia Portuguesa da FFCM.  

Dirigindo as suas palavras aos jovens especialistas da Filologia Portuguesa, a Embaixadora Ana Maria Ribeiro da Silva exprimiu, antes de mais nada, a sua esperança de que consigam realizar os seus sonhos de vida, participando na edificação conjunta do futuro europeu. A lição apresentou uma breve panorâmica histórica da adesão e da participação de Portugal nas estruturas europeias, relembrando que o seu país forma parte da União Europeia há já 35 anos, visto que assinou o Tratado de adesão em 12 de junho de 1985, no Mosteiro dos Jerónimos, um lugar que é emblemáto para além de ser um símbolo da ousadia e da coragem dos portugueses, passando a adquirir o estuto de membro de pleno direito a partir do dia 1 de janeiro de 1986.  A sua integração à Comunidade Económica Europeia (CEE), de acordo com a denominação que a UE tinha na altura, teve uma projeção muito positiva sobre vários aspetos da vida dos portugueses, salientando entre eles os mais imediatos como a consolidação da democracia portuguesa, o forte estímulo para o desenvolvimento económico, a redução da inflação no país para níveis historicamente baixos, melhorando as condições de vida da maioria dos portugueses, frisou a Embaixadora Ribeiro da Silva. Na sua análise das vias de modernização económica de Portugal a causa da integração europeia, Sua Excelência sublinhou o papel decisivo dos fundos de coesão europeus, os altos níveis de crescimento da produtividade no país, a adoção da moeda única europeia, como também ter passado a integrar o Espaço Schengen. „Todo o processo de integração que adotámos, interiorizámos e com o qual vivemos permite-nos projetar hoje para o exterior uma imagem de um país moderno, competitivo e credível, com reflexos ao nível económico do investimento estrangeiro, do turismo e das relações internacionais. Um país aberto ao mundo com laços estreitos com todos os continentes: África, Ásia e América, do Brasil aos Estados Unidos, laços de amizade e cooperação», recapitulou a Embaixadora Ana Maria Ribeiro da Silva.

No seu discurso, a Embaixadora de Portugal na Bulgária dedicou atenção especial aos desafios hodiernos com os que se confrontam os cidadãos europeus, incluídos os portugueses e, sobretudo, a gente jovem. Citando os versos de Luís Vaz de Camões, o grande poeta do Renascimento europeu que num dos seus sonetos mais famosos ressalta a eterna imperatividade da mudança («Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,/ muda-se o ser, muda-se a confiança;/ todo o mundo é composto de mudança,/ tomando sempre novas qualidades»). Sua Excelência Ana Maria Ribeiro da Silva lançou ao público jovem o apelo de olhar com firmeza para o futuro da Europa, para os destinos da sua renovação, com o objetivo de superar os desafios do presente com fé no vindouro. Sete décadas após a Declaração histórica de Robert Schuman, a vontade dos europeus continua a mudar a Europa, aprendendo a crescer juntos e a enriquecer a nossa diversidade com a adesão de novos Estados-Membros à União Europeia.  Os avanços da União Europeia e de todos os seus Estados-Membros são óbvios e nós perseveramos em fazer o necessário para esse efeito, indicou a Embaixadora de Portugal na Bulgária, acrescentando que nos dias de hoje as novas realidades exigem novas vontades. Porém, como cidadãos europeus estamos conscientes da maisvalia acrescentada, associada à atividade da União Europeia, mas por outro lado não deixamos de compreender que esta atividade precisa de se focar em problemas concretos como são, entre outros, a situação económica e social da população, as alterações climáticas, a migração, a saúde que se tem transformado em problema crucial ao longo deste último ano. A Embaixadora Ana Maria Ribeiro da Silva frisou que « Para ter um futuro, a Europa tem de apoiar a sua força na força da cidadania. Assim assegurará uma ampla participação cidadã. É mais do que uma questão da forma, é sobretudo uma questão de fundo. Europa não terá um futuro, se as nossas gerações mais jovens não tiverem um futuro na Europa.»

Referindo algumas questões-chave do atual debate europeu, com ênfase no assunto da autonomia estratégica da Europa, a Embaixadora de Portugal na Bulgária fez um esboço sucinto das prioridades da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia (1/01/ – 30/06/2021). Levada pelo entendimento de serem os oceanos o regulador mais importante do clima e a principal fonte da enorme biodiversidade marinha, a Presidência Portuguesa do Conselho sugeriu à União Europeia trabalhar em prol do projeto de proteção dos oceanos que percisam ser protegidos com urgência.

No final da sua conferência académica, Sua Excelência Ana Maria Ribeiro da Silva recorreu às palavras de Mário Soares, «o pai da democracia portuguesa», que veio avisar no ainda longínquo ano de 1976 que: «Construir a Europa não é tarefa fácil». Por isso mesmo, repensar a Europa e o seu futuro é um dever de todos os europeus, indicou a Embaixadora Ribeiro da Silva, dirigindo o seu apelo aos estudantes da audência para participarem ativamente no debate sobre o futuro da Europa na sua qualidade de cidadãos europeus para que a sua voz seja ouvida e as suas propostas, junto com as de muitos outros jovens da sua idade, possam traçar o futuro da Europa.

 

 

«Leituras camonianas» – Seminário de carácter científico-aplicado para os estudantes de Filologia Portuguesa, realizado na Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas da Universidade de Sófia Sv. Kliment Ohridski, maio – junho de 2021

Entre os dias 28 de maio e 10 de junho deste ano, a Cátedra José Saramago na Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas da Universidade de Sófia Sveti Kliment Ohridski promoveu um Seminário de carácter científico-aplicado com o título de  «Leituras camonianas», focando o trabalho com os estudantes de Filologia Portuguesa. A primeira edição deste Seminário que pretende atingir uma realização anual junto da Licenciatura em Filologia Portuguesa na Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas, foi dedicada ao génio criativo do poeta renascentista Luís Vaz de Camões, cuja poesia épica elogiou o empreendimento de envergadura planetária que representam os Descobrimentos portugueses e continua sendo uma fonte inesgotável de inspiração para os artistas de épocas posteriores.

O Seminário foi realizado como uma série de webinários estruturados em duas partes. Na primeira parte, orientada pela Prof.ª catedrática Dr.ª Yana Andreeva, os alunos abordaram o corpus selecionado, analisando os aspetos temáticos e estilísticos, como também a estrutura formal dos textos poéticos. Apresentando a grande diversidade de géneros da obra camoniana, o corpus incluía tanto exemplos dos géneros poéticos da Idade Média tardia, como igualmente amostras de composições renascentistas. O comentário dos textos concentrou-se sobre os temas relevantes dos versos camonianos  que transcendem o seu tempo, adquirindo uma tonalidade especialmente atual hoje em dia: a contradição interna e a volubilidade da natureza humana, a fugacidade do tempo humano, o interesse pelo outro e pela variedade de raças e culturas e, afinal, o indivíduo como cidadão da sua pátria, mas também como cidadão do mundo, igual ao próprio Camões nas suas longas andanças por Ásia e África onde escreveu grande parte das suas obras. Ao longo do Seminário, incidiu-se marcadamente na interpretação dos laços intertextuais entre as obras camonianas e os exemplares da novíssima poesia portuguesa, tendo sido escolhidos para este propósito os versos de poetas de renome, nossos contemporâneos, como Ana Luísa Amaral e Manuel Alegre, em se percebe com nitidez o diálogo com a poesia de Camões.

A segunda parte do Seminário decorreu em duas sessões, tendo já os estudantes um conhecimento prévio dos textos selecionados e dos seus valores artísticos e temáticos, seguido por uma leitura individual e prioritariamente silenciosa dos versos. A prática da leitura em voz alta pretendeu esclarecer a técnica de respiração adequada para um discurso público que contribua para superar certo «medo do palco», organizar a sequência das vozes na leitura, acompanhando a especificidade individual na articulação de segmentos fonológicos, nomeadamente, os alofones do arquifonema sibilante-chiante em coda nos diferentes versos, o fonema vibrante múltiplo, alguns fonemas vocálicos semifechados e os ditongos nasais na variedade padrão do português europeu, como também os acentos rítmicos dos sintagmas fonológicos e a construção da melodia entoacional dos versos em estruturas declarativas, interrogativas e exclamativas, junto com as pausas de forma a estimular a melhor transmissão da mensagem poética e dos conteúdos emotivos dos versos camonianos e dos versos inspirados na poesia de Camões, mas sempre na perspetiva da vivência individual do recitante. A consciencialização e o uso das características prosódicas do discurso métrico contribui para potencializar o efeito artístico e emotivo sobre o público.

Os resultados do Seminário apresentaram-se no webinário em homenagem ao Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas celebrado na Faculdade de Filologias Clássicas e Modernas da Universidade de Sófia e na presença da Embaixadora de Portugal na Bulgária, Ana Maria Ribeiro da Silva, da Diretora do Centro Cultural Português «Instituto Camões – Sófia», Anaísa Gordino, de estudantes, docentes, doutorandos e pós-doutorandos da Licenciatura em Filologia Portuguesa. No Seminário tomaram participação ativa os estudantes Antoaneta Stoycheva, Gergana Radisheva, Denitsa Urumova, Dimitar Atanasov, Yoana Atanasova, Kiril Terziiski, Miryana Gateva, Mihail Marchev, Monique Borisova e Tereza Vasileva, apresentando na forma de recital poético a sua interpretação dos versos camonianos e dos versos inspirados em Camões da autoria de poetas modernos.